sexta-feira, 11 de julho de 2008

Fluindo com o coração


Ana Jácomo
Não tenho me preocupado muito em saber para onde vou, como durante tanto tempo eu me preocupei. Curiosamente, experimento uma confiança de estar seguindo na direção do caminho que é meu, como nunca antes eu senti. Não há grandes acontecimentos que sinalizem isso. Apenas sinto. Apenas confio. Estou aprendendo, ainda que com os inevitáveis tropeços de todo aprendiz, a permitir que o meu coração tenha mais espaço para me mostrar por onde ir. Tenho deixado com mais freqüência que me conduza, porque ele faz isso sem esforço algum. Há uma leveza rara disponível nessa entrega.Ainda insisto, incontáveis vezes, no antigo e desgastante vício de tentar controlar tudo. Mas quando consigo simplesmente fluir no movimento espontâneo da vida, sinto que estamos conectados com uma inteligência amorosa, presente em tudo o que vive. Não sabemos de nada, mas ela sabe. E atrai para o nosso caminho as experiências, os encontros, o aprendizado de que precisamos para assoprar as densas nuvens que nos afastam do contato com o amor. Tudo se apresenta na medida e no momento adequados para que a nossa história seja desenhada com os traços que têm a ver com a nossa alma.Em alguns pontos do caminho, vivenciamos circunstâncias desastrosas. Não temos idéia de como fomos parar lá. Ficamos enraivecidos, tristes e assustados. Pensamos em desistir, porque achamos que somos uma idéia que não deu certo e que a vida não vale a pena. Quando o vento passa e, mais tranqüilos, olhamos para trás, às vezes percebemos que o vento foi forte e também útil. Por mais incrível que pareça, sem ele talvez não soubéssemos outra maneira de sair do lugar. Percebemos que acaso é só um nome que arranjamos para chamar aquilo que ainda não conseguimos entender.

quarta-feira, 9 de julho de 2008


Gente, eu prometi que colocaria textos de uma amiga, lembram!? Pois é, então aproveitem, é lindoooooooooo!!!

Ana Jácomo
É preciso coragem para terminar uma história de amor. Coragem para lidar com a dor e ainda assim acreditar na própria habilidade para seguir confiante pela vida, mesmo com uma cicatriz a mais. Coragem para chorar muito, chorar tudo, e ainda assim crer no tempo do sorriso novo. Coragem para dilacerar, a sangue frio, sem promessa de anestésico, o sonho acalentado de ter aquele bem-querer ao nosso lado. O sonho de, ao final do dia, por incontáveis dias, aconchegar-se no abraço bom do outro, maravilhado por sentir que não existe no mundo outra maneira de se dormir tão gostoso. O sonho de acordar junto nas manhãs em que se acorda ensolarado e naquelas em que se acorda chuvoso, mas acordar pertinho. O sonho de ver os cabelos embranquecerem, as mãos envelhecerem, a pele tornar-se cada vez menos viçosa, e, ainda assim, enamorar-se novamente a cada outro olhar.É preciso coragem para terminar uma história de amor. Coragem para atravessar tempestades terríveis, desertos intensos, noites imensas e, ainda assim, seguir. Mesmo doendo. Mesmo cansando. Coragem para aquietar o próprio coração e lhe dizer que vai passar, quando, na verdade, a gente não tem a mínima idéia de quando nem se vai. Coragem para continuar habitando um corpo que é um campo minado, onde qualquer movimento faz explodir a memória dos sentidos, e com ela o desejo. Coragem para continuar olhando para a vida com olhos saudosos que teimam em encontrar o amado nas coisas mais improváveis e nos momentos mais imprevistos.É preciso coragem para terminar uma história de amor. Coragem para ouvir do outro, com ou sem palavras, que o que demos foi pouco, quando o tempo todo a gente sentia dar o melhor. Coragem para se desapegar dos códigos, dos hábitos, dos truques inventados. Da ludicidade. Das seduções. Do texto. Da trilha sonora. Dos efeitos especiais. Da intimidade. Coragem para agradecer mais o encontro do que lamentá-lo. Para bendizê-lo. Para abençoá-lo. Para não se tornar mais um pessimista comum que depois de se deliciar com o banquete, afasta-se da mesa reclamando do tempero.É preciso coragem para terminar uma história de amor. E por mais que machuque, entristeça e dilacere, chega um momento em que a gente sabe que não há outra alternativa, senão ter coragem para baixar as armas cansadas. Para anunciar o cessar-fogo. Para hastear bandeira branca. Para parar de brincar de vítima e algoz. De gato e rato. De queda de braço. É preciso coragem para retomar a própria vida. Para reaprender a estar consigo mesmo. Para se permitir começar tudo de novo, quando o novo vier. Para não se fechar o coração à perspectiva de que aconteça essa que é uma das melhores dádivas: amar e ser amado, olhar e ser olhado, ao mesmo tempo.
Amar é um desafio dos grandes e dos bons. Pede que a gente cresça junto e leve luz a um monte de sombras. Às vezes, a gente consegue; outras, não. Uma história de amor é coragem de dois.


segunda-feira, 7 de julho de 2008


"Aprendi com a primavera a me deixar cortar e a voltar sempre inteira" - Cecília Meirelles